Esse é meu primeiro post para o Cantinho de Ná. E como aprendi na vida, é melhor começar falando de amenidades. Vou começar falando da alegria em ter sido convidada para fazer parte desse projeto com as minhas cunhadas e do desafio de participar escrevendo de uma forma bem diferente do que estou acostumada. Vou tentar aqui me liberar dos vícios do jornalismo e da academia, esse segundo bem mais forte e difícil de me desvencilhar. Toda a minha vida falei de coisas muito sérias e sempre me policio muito para ser correta em tudo o que faço, e desse costume não quero me desfazer, mas sim ser menos séria e, ao menos, ponderar assuntos sérios com amenidades e coisas divertidas. Vai me fazer bem.
Resolvi começar mesmo escrevendo sobre morar longe da família, ter que construir sua própria vida e morar numa cidade que para muitos é sinônimo de corrupção, para outros de chatice e para alguns poucos, como eu, é sinônimo de começo e descobrimento! Eu descobri Brasília e hoje vou falar de alguns bons aspectos da cidade para vocês.
Como já contei na minha apresentação, moro em Brasília há quase três anos e vim estudar. O começo foi muito difícil. Sempre fui muito apegada à família, aos amigos e à cidade; à praia principalmente, pois ia todo fim de semana. Chegar a uma cidade sem a família, com poucos amigos e sem praia foi desesperador. Acreditava que ao terminar os créditos do doutorado voltaria correndo para o Recife. O tempo foi passando, Brasília foi me acolhendo e acolhendo ao meu companheiro Rodolfo de várias formas. Estamos sendo acariciados profissionalmente desde que chegamos aqui. É bom saber que temos opções de emprego, não é verdade?! Nos passa uma segurança, pois, na nossa atual conjuntura de vida, o profissional fala bem alto. Não temos filhos e viemos para aqui na vontade de nos qualificarmos profissionalmente, e assim tem sido. Nas nossas áreas, Brasília ferve. A gente está no centro de muitas decisões, participando de muitas delas ativamente. Muitos amigos e cada vez mais amigos têm Brasília como destino de passagem, para congressos e reuniões de trabalho, mas também, quem diria, para visitas.
A cidade é um monumento a céu aberto. Por onde você anda, pode ver coisas interessantes. Desde os carros parando nas ruas para dar preferência aos pedestres, o fechamento da maior avenida da cidade (Eixo Rodoviário, ou “Eixão”) para ser ocupada por pessoas nos domingos e feriados, ao encanto de caminhar pela Esplanada dos Ministérios, visitar os palácios do Planalto, do Congresso Nacional, da Alvorada, a Catedral e assim por diante. Brasília, como todas as cidades, também tem uma série de defeitos, mas também, como todas as cidades, se você se abrir para ela, ela se abre para você. O segredo é ter o coração aberto e a mente tranquila.
Uma das melhores experiências para mim em Brasília é a ocupação dos espaços públicos pelas pessoas. Descobri que adoro ir ao “Eixão” aos domingos ver as famílias passeando, os adolescentes paquerando, as pessoas se exercitando, a vida pulsando. De forma alguma isso substitui minha praia, mas um segredo para quem quer ser feliz onde TEM que morar, é não querer achar que alguma coisa substitui a outra. Ninguém substitui ninguém e com as cidades essa regra também vale. A busca pela alegria e satisfação tem que estar com você. Dessa forma você vai encontra-la no que é possível ser feito. Aqui não tem praia como no meu Recife, mas aqui tem gente ocupando as ruas no lugar dos carros, coisas que no meu Recife não tem.
Todo esse enorme preâmbulo foi para falar sobre esse ponto. A ocupação dos espaços públicos pelas pessoas. Toda vez que volto do Recife, e estive recentemente no Carnaval, volto com essa ideia fixa. Por que o recifense – inclusive eu quando morava lá – não usufrui do outros espaços públicos de lazer que não a praia? E ai vão algumas perguntas básicas: qual a última vez que você levou seu filho/a a um parque público ou viu uma rua da cidade fechada para o lazer? (Não vale o Carnaval!!! ) Para andar de bicicleta? Você tem uma bicicleta? Já foi ao trabalho com ela? Já andou com seus filhos e marido/mulher no domingo no parque? Andar de bicicleta traz boas lições de vida. Escreverei um post sobre isso qualquer dia desses.
A relação das pessoas com a cidade e com os espaços públicos para mim precisa ser repensada. Por comodidade, lógico, todos nós gostamos de comodidade, fomos aos poucos deixando que o carro ocupasse nas cidades um espaço tão grande, que não nos demos conta de que nós estávamos perdendo o nosso espaço. Hoje pela lógica construída é difícil se deslocar diariamente de bicicleta, por exemplo, ou usar o metrô. Coisa que fazemos sempre que viajamos, não é? E isso também é difícil em Brasília no dia a dia. Eu, pela pouca prática e ainda pouca estrutura cotidiana da cidade, não consigo ir ao trabalho na magrela que ganhei de aniversário do meu marido. Mas sigo na tentativa – meu prazo é que depois do doutorado eu consiga! O prazo é longo, mas eu tenho ele como meta real.
Quero sair da inercia que me deixou a opção de apenas reclamar dos engarrafamentos, quero pensar a vida para além dos condomínios fechados. Em Brasília os prédios não possuem muros, as pessoas podem circular por eles. Isso é lindo. As quadras de esportes e parquinhos infantis estão presentes em todas as quadras residenciais e são usadas pelos moradores daquela quadra. Nada é fechado. Bem diferente da realidade dos prédios do Recife, sobretudo, hoje em dia. Não sei se essa lógica vai mudar em pouco tempo, mas nos resta pensar sobre o futuro e tentar também fazer diferente. Uma boa dica é olhar para os países que muitas vezes nos pegamos usando como referência, como modelo, como exemplo. Quantos dos países europeus já fizeram a troca dos carros pela bicicleta? Vale pesquisar a história da Holanda e ver como o país melhorou ao se repensar enquanto país para pessoas e não para coisas.
História das Ciclovias Holandesas
https://www.youtube.com/watch?v=RATz0q2uYlc
Segue uma foto do Eixão no domingão. Eu sempre penso que a Av. Boa Viagem poderia ser assim e/ou o Cais José Estelita. Vamos pensar sobre isso! Fica o convite.


















Respostas de 9
Adorei o texto, sobretudo a respeito do lazer nos fins-de-semana. Ontem eu mudei a programação familiar pois ainda havia encerramento de carnaval com o “Camburão”, então fui ao Horto de Dois Irmãos. Uma pena verificar que continua mal cuidado com sempre… quem tem oportunidade de conhecer parques e zoológicos no exterior é que percebe quão deficiente nós somos nesse aspecto.
Quanto á utilização de bicicleta, eu nem poderia me atrever a ir trabalhar pois a distância de casa é 27km, mas nos fins de semana sinto falta de uma área onde posso andar de patins. Não dá na Avenida Boa Viagem pois o material do calçadão é daqueles tijolos horríveis e desnivelados, que é o mesmo da ciclovia. A única área cimentada é o pátio da “Academia da Cidade”, onde também temos de disputar espaço com crianças jogando futebol (apesar de toda a areia da praia disponível para eles), então fica difícil.
Bom saber que em Brasília já se pensa no lazer da forma como foi relatado, e vou aproveitar para ficar de olho por aqui e, caso algum dia eu possa opinar a alguma autoridade ou alguém da mídia, lembrarei de sugerir essas mudanças.
Cibele, também fomos recentemente ao Horto e a impressão foi a mesma que você teve, infelizmente. Quanto à questão do uso de bicicleta a situação é bem complicada, uma amiga minha recentemente foi pra o trabalho de bicicleta, ela mora em Casa Forte e trabalha na Madalena, no intervalo do almoço a caminho de casa foi roubada, levaram a bicicleta dela, na primeira tentativa acontece essa triste constatação, mas claro que temos que ter disposição pra tentar fazer nossa parte e ajudar a mudar esse panorama. Iremos pra Brasília dia 07 e voltaremos dia 10, será minha 3ª vez na cidade e como visitante minha impressão foi muito boa, José Ricardo ficou encantado.
Muito legal o post. Vou bastante a Brasília a trabalho, mas nunca estou por lá aos domingos de manhã, então nem sabia dessa maravilha.
Tenho percebido essa conscientização das pessoas em relação a utilizar mais outros meios de transporte ,além do carro para trabalhar. No BB, onde trabalho, existem muitos colegas se deslocando de bicicleta para ir ao trabalho, já existe até no prédio que fica na Av. Rio Branco um bicicletário onde as pessoas guardam suas bikes e também um andar que funciona como vestiário, com chuveiros e armários. Como em Brasília, no RJ a Av. Atlântica também fica fechada para os carros aos domingos, fui lá ano passado e achei uma delícia alugar uma bicicleta e curtir aquele visual maravilhoso. Em Porto Alegre também é fechada aos domingos a avenida próximo ao Guaíba para que as pessoas possam passear a pé, de bicilcleta, de patins. Acho que em Recife isso poderia ser implantado na Av. Boa Viagem aos domingos, vocês náo acham?
Pois é, a última vez que fui ao horto ele ainda estava legal, mas muita gente que foi depois já me falou que está acabadinho. É uma pena…
Um lugar que eu gosto muito de ir no Recife é o Parque Dona Lindu, acho que ficou um espaço bem legal e com as árvores crescendo tende a ficar melhor. Tenho visto quando passo que as pessoas estão ocupando. Meus sobrinhos adoram o parque e pedem para ir. Minha mãe dia desses me ligou que estava tendo encontro de blocos líricos, uma prévia de carnaval lá.
Eu acho que o exemplo do Rio de Janeiro é ótimo tb. Inclusive porque parece muito com a nossa realidade. Eu acho fundamental fechar a Av. Boa Viagem aos domingos. No Rio, o carioca já sabe que se for a praia tem que ser de ônibus/metrô, bicicleta ou andando. Tudo é uma questão de hábito. O asfalto da Avenida, por exemplo, é ótimo para o patins, porque são placas. Eu não falei no post mas aqui em Brasília tem também os parques, no Parque da Cidade, o maior deles, as pessoas podem fazer caminhadas, pedalar ou andar de patins e também estirar uma canga no chão e dormir!
A violência no Recife é também um fato intimidador, mas acho que esse também é (NÃO APENAS!!!) um reflexo do abandono dos espaços. Com mais gente fica sempre melhor!
O post ficou ótimo! Um parque que vou muito com as meninas é o da Jaqueira, reformaram os parques, ficou ótimo e bonito! Adorei, e Luana(nha fila mais velha) então nem se fala… Aqui na zona norte um outro lugar que gosto de ir com minhas filhas é a praça de Casa Forte, não tem brinquedos, parques, mas tem uns lagos com peixes e tartaurgas e sempre tem crianças dando comidas(geralmente pão) a eles… é um programa agradável também.
Olhem esse link, achei que a ideia tem tudo a ver com o post. Lembrei daqui e dos comentários!
http://www.forummundialdabici.com/noticias/oficina-no-2ofmb-vai-ensinar-pais-a-pedalarem-com-seus-filhos-em-seguranca/
Muito interessante Mari, as bicicletas dos meninos ficam na praia porque não deixo eles andarem aqui de jeito nenhum, justamente pelo receio de não saberem lidar com o trânsito e também pelo desrespeito dos motoristas dos carros com os ciclistas. Seria excelente um forum desses aqui.