Eu não estava brincando quando falei na minha apresentação que eu gosto mesmo é de ser polêmica! E hoje vou exercer com toda maestria esse direito!
Hoje é dia da mulher, e esse dia representa muito para todas nós. É de Simone de Beauvoir uma das frases que mais gosto na vida: Não se nasce mulher: torna-se! E eu aproveito para perguntar: o que é tornar-se mulher para você ?
Para mim, que sou feminista (para alguns isso parece um palavrão, né? Mas não é!), tornar-se mulher é um desafio cotidiano. É saber que a nossa emancipação, nossos direitos, foram todos frutos de muita luta. É lembrar, todo dia 08 de março, que esse dia é o dia da mulher porque marca a morte de operárias que lutavam por melhores condições de trabalho e por direitos trabalhistas. Condições e direitos esses que hoje muitas de nós usufruímos. Logo, devemos muito às operárias novaiorquinas que perderam suas vidas e viraram símbolo dessa luta. Símbolo esse que nem sempre é conhecido, ou propagado. O dia da mulher é, muitas vezes, lembrado sem que esta relação com a luta por direitos seja retomada.
Podemos sim hoje dizer que gozamos de uma liberdade muito maior que as mulheres do século passado, que nós temos direitos trabalhistas, podemos votar, podemos andar com as roupas que queremos, podemos escolher com quem vamos casar, se vamos ou não querer ter filhos, se vamos seguir uma vida profissional ou não e se vamos criar nossos/as filhos/as para terem ainda mais liberdade e direito de escolhas que nós. Outra condição para mim do tornar-se mulher é criar nossos filhos/as (quando temos) para construírem também um mundo diferente. Um mundo de igualde de gênero e respeito.
Mas é importante também lembrar, nesse 08 de março, que muitas mulheres, e eu não vou nem tão longe, vou me ater ao Brasil mesmo, ainda não podem usufruir desses direitos. Muitas mulheres ainda são vítimas do feminicídio, que é o assassinato quando a causa morte é: ser Mulher. Isso se dá porque muitos homens ainda acham que as mulheres são propriedade deles e quando a gente decide não querer mais um relacionamento, eles nos matam. Crimes como esses estampam capas de jornais todos os dias, mas há também muitos que de tão banalizados são ofuscados.
Há também a violência doméstica, que não necessariamente acaba em morte, mas que marca a ferro e fogo a vida da mulher que é vítima e a vida dos seus filhos/as. Uma importante lei, a Lei Maria da Penha, vem melhorando um pouco a visibilidade do combate a esse tipo de violência. Muitas mulheres não podem escolher se querem ou não ser mães, muitas não têm garantido o direito ao aborto, por exemplo. E não sejamos ingênuas, não estou falando de ser à favor ou contra aborto, não estou entrando no mérito da questão, estou falando que o aborto é uma prática que existe e é legitimada para quem pode pagar por ele. Isso é fato! Muitas mulheres não podem se dar “o luxo” de usufruir de direitos trabalhistas porque elas não têm trabalho. Outras deixam seus filhos com as vizinhas para cuidar e dar amor ao filho de outras mulheres, que também para trabalhar precisam deixar seus filhos com outras mulheres, e assim por diante. Tornar-se mulher é, também, portanto, não esquecer que os direitos que usufruímos (ou podemos usufruir) a muitas outras mulheres ainda é negado.
Nossos salários ainda são menores que os dos homens, mesmo que a gente tenha escolaridade maior. E segundo o IBGE as mulheres têm maior índice de escolaridade que os homens e quando ocupam o mesmo cargo, recebem menos. Tornar-se mulher é, portanto, não se intimidar diante das adversidades na vida profissional e doméstica.
Ser mulher é mais do que amar ou não homens, querer ou não ser mãe, gostar ou não de trabalhar dentro ou fora de casa, usar ou não batom, salto, maquiagem… Mulher pode ser tudo isso ou nada disso.
Acho que toda a mulher já sentiu um dia nas costas um dia o peso de ser mulher, tanto para o lado que pesa a nosso favor como o lado que pesa contra. Saber transformar esse sentimento em luta para melhorar a vida de todas as mulheres para mim é ser mulher.

















