Mudar nunca foi fácil, e não será agora

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No dia 01 de maio, Dia do/a Trabalhador/a, estreou o documentário Doméstica, do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. O documentário é anterior à aprovação da PEC das Domésticas, que vem ocupando boa parte das conversas de bar, de família e os noticiários. Gabriel optou por um formato bem original para este documentário, o que fez dele mais que um simples documentário filmado friamente, mas um retrato da realidade sociológica brasileira.

Sete adolescentes assumem a missão de registrar por uma semana a sua empregada doméstica e entregar o material bruto para o diretor realizar um filme com essas imagens. Entre o choque da intimidade, as relações de poder e a performance do cotidiano, o filme lança um olhar contemporâneo sobre o trabalho doméstico no ambiente familiar e se transforma num potente ensaio sobre afeto e trabalho.

Assisti ao filme no ano passado, no Festival de Cinema de Brasília. Desde então ele não saiu da minha cabeça. O documentário é realmente excepcional. De sensibilidade e plenitude indescritíveis. Esse filme fez, para mim, Gabriel entrar de vez no rol dos grandes documentaristas do Brasil. Ele já havia me surpreendido positivamente com “Um Lugar ao Sol”, em que retrata a vida dos moradores de cobertura em diferentes cidades do país. Agora, para mim, coroa a sua trajetória com “Doméstica”. É de Mascaro também o filme “Brasília Formosa”.

Voltando ao “Doméstica”, o filme é forte e revelador. Conta histórias que todos nós conhecemos, muitas delas que vivemos. As domésticas que moram na casa das patroas, as domésticas das domésticas, as domésticas que “são da família”, as que deixam suas famílias para trabalhar e garantir a harmonia de outras famílias. No mínimo, o filme serve para que a gente pense de forma bem séria a relação de trabalho que se construiu ao longo dos séculos no nosso país. De onde ela vem, e mais importante ainda, para onde ela vai?

É evidente que as relações de trabalho doméstico no Brasil têm vínculos com o nosso passado escravocrata. Basta ver que a grande maioria das trabalhadoras domésticas continua sendo negra. No Brasil, passamos muito tempo achando que as empregadas domésticas não tinham os mesmos direitos que nós no mercado de trabalho. Podiam ganhar menos, trabalhar mais e não ter FGTS.  Pesa um pouco em nossos ombros assumirmos isso. Ver no filme isso se revelar, choca. Ver-nos tentando encontrar motivos e justificativas para perpetuar aquela relação de trabalho que nenhuma de nós queria ter, é constrangedor.

Existia – e ainda existe, porque a lei não resolve tudo da noite para o dia – uma condescendência de toda a sociedade brasileira com a perpetuação de uma herança da escravidão que vamos teimar em não querer assumir. Mas sim, apenas uma categoria do trabalho formal brasileiro, a categoria doméstica, trabalhava como uma exceção à regra dos demais trabalhadores. Isso tudo para que nós, a classe média, pudéssemos desfrutar dos seus serviços. Elas arrumam nossas casas, limpam nossos banheiros, lavam nossas louças, passam nossas roupas, fazem nossas comidas e muitas vezes tomam conta dos nossos filhos. Para que nós mulheres de classe média pudéssemos trabalhar, as domésticas tomaram conta de nossas casas e filhos. O nosso direito de trabalhar fora de casa foi tão importante e revolucionário quanto é hoje assumir que essa categoria, que serviu ao nosso sucesso, possa também ter os seus direitos garantidos.

Eu sou de uma geração criada por domésticas, mas não me parece difícil não ter que depender delas para criar os meus filhos. E a PEC das domésticas não antecipa isso, a lei não está à frente da sociedade. Bem que poderia ser assim, mas a lei acompanha uma tendência e, por isso, no Brasil, demorou tanto. Antes mesmo da PEC das Domésticas, lei fundamental para repensarmos a nossa sociedade de uma forma geral, meu marido e eu já tínhamos claro que faríamos de tudo para que nós pudéssemos criar os nossos filhos sem depender de babá full time.

E daí sei que você está pensando: “Ahhhhh, olha aí, ela está falando tudo isso porque ela não tem filhos”. Pode ser que sim. Não descarto essa hipótese. Mas me apego a modelos que todas nós reverenciamos como democráticos para dizer que isso é o melhor caminho.

Nos países europeus, todas nós sabemos, uma família de classe média não tem capacidade de manter em casa, diariamente, uma babá ou uma trabalhadora doméstica. E o que nós falamos deles? Que são “mais evoluídos” socialmente. Ninguém vê um europeu lamentando porque não tem trabalhadora doméstica ou que tem que pagar o salário justo e os direitos trabalhistas para as domésticas. Eles têm uma igualdade social maior, e os trabalhadores de uma forma geral custam mais caro. São mais valorizados. Não que o trabalho doméstico, nesses países, não exista ou sejam hiper valorizados socialmente. Não. Ele continua sendo trabalho doméstico, o trabalho que eu duvido que alguém tenha sonhado quando criança para “ser quando crescer”.

Pois é, o início vai parecer difícil. E realmente é. Não duvido da dificuldade que está enfrentando a família que tinha a vida organizada na lógica mais comum da classe média. É sempre muito difícil mudar, principalmente quando não é do nosso controle a mudança, quando não está mais ao nosso alcance econômico resolver. A lei chegou, mas a sociedade ainda não fez os ajustes necessários. Agora é lutar para melhorar a cadeia de auxílios de uma forma geral. E isso já está acontecendo. As escolas vão ter que oferecer horário integral, tanto as escolas privadas como as públicas. Os pais, e não mais só as mães, vão ter que assumir e dividir (dividir não é ajudar – ajudar é um favor, dividir é uma responsabilidade) as atividades com a casa e com os filhos. Quem sabe os trabalhadores vão se unir para exigir que nos seus trabalhos tenham creches? Que a licença paternidade não seja de ridículos 5 dias?

Acreditem, é assim que sobrevivem as mães europeias e elas não só sobreviveram como são consideradas mais “evoluídas socialmente” que nós. Ser democrático é assim. E é bom que a democracia não seja só bem vinda e defendida quando é boa para nós, ou que seja boa para visitar nas férias. Ela veio para ficar, espero.

Para os cristãos, seria bom pensar também na máxima: não fazer com o outro nada que você não queira que seja feito com você. Logo, não negue a ninguém os direitos conquistados, pois você não gostaria de ter os seus negados. E ainda digo mais, o fato de você, por um acaso, ter os seus direitos violados, não justifica você violar o dos outros, ou das outras, para ser mais direta. Tenho certeza que você não ensina isso a seus filhos, não é verdade?

O convite para assistir ao documentário “Doméstica” está feito. Confira na programação do cinema mais perto de você.

Trailer:

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=NVl1wptZdS4

Picture of Cynara Vianna

Cynara Vianna

Designer, casada, mãe de 3 filhos homens. Adoro crianças, culinária e viajar. Esse um dos maiores prazeres que descobri há algum tempo atrás e que hoje tornou-se meu vício. Uma das minhas últimas descobertas foi escrever. Comecei um blog para ter ‘com quem’ desabafar e descobri um grande prazer, contar minhas experiências, descobertas, passar dicas, sempre de coisas vivenciadas por mim. E assim, estou sempre em busca do novo!

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Uma resposta

  1. Mari, concordo com boa parte de sua opinião, o que nos falta é educação e exercício de civilidade, coisas que não adquirimos apenas com uma aprovação de lei ou PEC, ou o que seja. Escuto muitas pessoas elogiando o comportamento das famílias em outros países realmente, mas isso é cultural e vai demorar muito pra atingirmos esse nível.
    Eu e meus irmãos tivemos parte de nossas infâncias acompanhados por babás, Juliana e eu principalmente ficávamos muito com nossa avó e tias, já Rodoldo (seu marido) teve uma babá exclusiva até os 4 anos porque mamãe trabalhava fora, a casa era muito grande, tínhamos 3 secretárias fora a lavadeira / passadeira. Sempre fomos orientados a tratá-las com educação, pedir por favor, agradecer um pedido realizado, e mesmo com esse time de gente em casa eu e Juliana tínhamos que forrar nossas camas antes de sairmos pra o colégio e colocar a roupa suja no cesto. Já na minha casa, só tive babá quando estava com um filho de 3 anos e um recém-nascido, e mesmo assim foram apenas 6 meses, depois disso fiquei apenas com uma secretária faz-tudo e eu trabalhava fora como você sabe. O ponto que acho fundamental é cada um ter em mente que se eu sujei um copo, eu vou e lavo, se tomei banho coloco minha toalha no varal pra secar, por essas atitudes com meus filhos já fui tachada como ‘general’, pra mim criança tem que ter deveres sim e não são ‘coitadinhos’ por terem regras e certas disciplinas domésticas a cumprir. Se cada um fizer um pouco as coisas não se acumulam e seria muito mais fácil termos uma rotina sem uma secretária diariamente dentro de nossas casas. Há quase 3 anos estramos no sistema dela ir pra casa todo final de tarde. Preferimos ter nossa privacidade preservada pelo menos à noite quando estamos todos juntos em casa, isso não tem preço. No momento atual é preciso uma conscientização não só dos patrões mas das domésticas também, agora é só ‘eu tenho direito’ e acabou, as coisas teriam que ser muito bem explicadas pra ambos os lados e isso não está acontecendo.

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